70 dias para 30 anos

Respingos de uma vida que a beira dos 30 foi atirada ao ventilador.

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70

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Nunca me preocupei com a idade porque afinal de contas eu sempre fui a mais nova entre as pessoas. Mas a proximidade com os trinta anos me trouxe uma crise absurda de perdedorismo.  Nada me soa bem o suficiente, principalmente quando conto moedas para aproveitar a promoção do creme antiidade. Acredito que se meu lado macho não tivesse sido absorvido durante a gravidez, as coisas não seriam tão absurdamente estranhas. Será?

Fazer 30 não é uma coisa incômoda. A idade, eu digo. É o peso. É saber que aguardo que alguém com 27 faça logo a revista que planejei para que eu possa trabalhar com alguma dignidade. É começar a acreditar que as previsões da borra de café da senhora libanesa e dos professores da faculdade e dos editores nada mais são que palavras coloridinha. Fazer 30 me dá a sensação de que sou uma aleijada pregando o keep walking.

É estranho fazer 30 quando ainda está longe do que imaginou. Achei que seria editora de uma grande revista, teria um bom salário, um casamento estável, grandes viagens na lembrança e riquezas incontáveis. Tendo que reforçar o clichê, de tudo isso que consegui foi um casamento mega bacana e uma riqueza incontrolável: uma menina de pouco mais de um ano. Cachos, safadância e paredes brancas recém pintadas cheias de riscos geniais de giz de cera. :~

Já não tenho a necessidade desesperadora de emitir minha opinião (meia-verdade) e não me importo com algumas opiniões e me desespero com outras.  Minha análise do contexto melhorou de forma absurda e ironicamente o contexto é uma coisa que não se aplica a mim.

Estou trancanda em uma pessoa muito diferente do que fui. E não tenho nenhuma lembrança do que costuma ser. Já não existem mais em mim a pessoa apoiada no balcão à espera da bebida e tão pouco a que acorda de madrugada para treinar socos. Há uma grande lacuna entre o que costumava ser, o que me tornei a um segundo dos 30, o que imaginava e o que posso ser.

Hoje. Só hoje, quero ser uma pessoa que chega uma pouco mais cedo em casa para pensar de maneira sensata em como vai dar a volta na maior rasteira profissional da vida. Aprender a lidar com o impacto do improvável é uma lição dura. Dura demais para alguém que, como eu, desde cedo aprendeu que a rotina e o porto seguro são essenciais para a sobrevivência.

Escrito por Fabrina Martinez, com F e Z no final

Setembro 30, 2008 em 10:15 pm

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Sim, 70. Porque não?

Escrito por Fabrina Martinez, com F e Z no final

Setembro 30, 2008 em 10:02 pm

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