Archive for Outubro 2008
40 [atrasado] e 39
Ontem, por questões metafísicas, faltou internet na firma. E eu fiquei sem postar o texto. Então aí vai ele. Hoje é meu último dia nesse emprego e a Isa vai pra noite do pijama na escolinha. Não tenho muito o que contar. Volto na segunda.
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Uma das coisas que sempre me intrigou nas pessoas bem sucedidas é o foco. Aparentemente, elas nunca se perderam. Nunca fizeram algo que não gostavam por achar que amavam. Sempre por necessidade ou por uns trocados. Acreditei ternamente que deveria ser jornalista e que seria uma boa profissional. Dez anos depois da minha primeira matéria assinada, alimento sérias dúvidas sobre isso. Não sei se por prepotência, arrogância ou ingenuidade, realmente acreditei que o jornalismo era uma profissão gratificante.
Não é. O dia-a-dia é cansativo e moroso. Sabe-se muito sobre tudo e sobra pouco espaço, tempo, vontade para o que realmente importa: o que se quer de verdade. Ontem dormi e acordei pensando no que queria. Contar histórias. As minhas. Interessantes ou não. As de outras pessoas. Vivas ou inventadas.
Pensei nisso enquanto caminhava hoje pela manhã. No 40º dia que antecede meu aniversário de 30 anos, tive a coragem de assumir para mim que não me importa a redação. Não me importa meu nome escrito num jornal local ou numa agência internacional – emoção efêmera vale ressaltar –, isso não me basta. Preciso de livros, contos, historietas, micro-contos, desvirtuamento, insanidade.
Não me bastam os adjetivos. Sem as metáforas e hipérboles meu mundo não é possível. As redações me sustentam a carne e os carnês, mas esgotam minha vontade. Conseguia ser realmente feliz ao contar para Isa histórias incríveis que a ajudassem a se livrar das cólicas e ganhei o Lucas ao lhe falar claramente sobre o que se passava e como passava na minha cabeça. Hoje, entendi finalmente, que preciso me ganhar. Mais que isso, como vou me ganhar.
Trazer a tona um mundo interno tão movimentado não é mero ato de sobrevivência ou uma ação egocêntrica. Tenho consciência plena de que as pessoas simplesmente podem não se interessar pelo que tenho a dizer. Mas escrever e publicar, seja qual mídia for, será mais profundo ato de irresponsabilidade social.
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Adoro badulaques com todas as forças da minha mente. Alguns são bem significativos, como esse que ganhei do Lucas no último dia dos namorados. Para mim, é uma obra de arte premonitória.
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Tenho alguns rituais diários. Os mais saudáveis incluem conversas por e-mail com a Carole no msn com a Elisa. Os mais negativos – que alimentam as minhas obsessões – são visitas aos sites de moda, emagrecimento, livrarias, compras, filosofia, economia e noticiários.
Uma das poucas coisas que tentei não arduamente cultivar e conforme previsto nunca consegui sucesso foi a disciplina para limpeza da casa. Odeio. Odeio todo o processo que envolve esse ritual. A lavagem da louça, do banheiro, tirar o pó e colocar as coisas no lugar. Detestável. Lembro da minha mãe dedicada encerando a casa e me dizendo que aquilo era essencial. Mas porquê? Porque o chão limpo fazia dela uma pessoa mais útil no processo do matrimônio? Acho que sim. Acho que ela e meu padrasto realmente acreditavam nisso.
Tanto que houve uma época em que ele ficou desempregado e passou a cuidar da casa enquanto ela trabalhava. Ele lavava, passava e encerava na mesma ordem que ela. Reclamava da quantidade de calcinhas sujas e da toalha molhada na cama. A mesma coisa, só que desta vez saindo de uma boca com bigode.
Não entendo esse processo de ser dona de casa. Muito complexo para mim. Sou do tipo que compra as refeições prontas e reza por uma faxineira. O resto eu dou conta de fazer, mas é muito complexo o organograma da vida dentro de casa.
E minha mãe sempre dizia que se eu quisesse evitar isso, deveria estudar e ter uma profissão. Estudei jornalismo e escrevo algumas centenas de linhas todos os dias. Ainda assim, destruí minhas unhas francesinhas tirando manchas de gelatina do quarto da Isa. Mais uma vez, minha mãe mentiu.
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Consegui um pequeno milagre hoje. Fazer minha caminhada por dois dias consecutivos. A disciplina é algo revelador. E encarar o processo nunca foi meu forte. Sou daquelas que acredita nos filmes da Barbra Streisand e nas mudanças que acontecem durante uma música. Lá está ela, a mocinha renascentista comendo bolinhos em seu pijama folgado quando ela tem uma revelação. “Cenouras e exercícios”. Ela come cenouras e durante toda uma música ela pratica exercícios: esteira, corridas, abdominais e flexões. Pouco antes da canção terminar, ela já está no provador brigando com a mãe porque ela quer o conjunto preto 42 e não o 44. Bem, na minha vida não é bemmmmm assim. A música termina, vem outra e outra e no final eu continuo usando 46 e sem suar muito.
Foi assim hoje. Depois de cinqüenta minutos de caminhada matinal ao ar livre, ao invés de me sentir limpa e rejuvenescida, minhas pernas tremiam. Meus braços formigavam e minha mão estava tão inchada que se o ladrão quisesse roubar minha aliança teria que decepar meus dedos. Pior que isso é ver todos aqueles bigodes brancos e distintos suando e passando por mim. Uma. Duas vezes. Uma senhora me ultrapassou duas vezes e eu pensei: agora. Disparei e corri por 50 metros. Parei porque minha corrida é precária. Nem tenho um mp3, o que dirá um desfibrilador.
Com algum sacrifício consegui parar de tremer e passar os cremes. Estava tão eufórica que passei o creme para a barriga no pé. Dez minutos depois consegui levantar. Mal lavei minha cabeça, já que perdi a noção das esfregadas no couro cabeludo. Um caos. A calça continua apertada, a calcinha ainda enrola quando eu ando, mas esse pequeno trecho de saúde está me fazendo bem. Embora, eu tenha realmente hiperventilado hoje ao ver uma carteira branca de couro da Chanel. Pode ser que eu compre. Foda-se a crise econômica internacional.
43 (admito que perdi as contas)
O que seria o retrato desta segunda-feira? Contar que acordei de manhã e fui caminhar na Lagoa. Que senti prazer sentindo o ar livre e que por um átimo de segundo achei que pudesse gostar da vida calma. Poderia também falar do final contando o sábado agradável com a visita de uma criança de quatro anos ou do domingo insuportável por conta do calor escaldante.
Seria ainda um bom retrato falar da casa que está esperando por uma faxineira que não vem e sequer avisou que vinha? Será que a minha ligeira dor de cabeça e o meu sono seriam a imagem ideal? Ou então a transição de tudo isso para um todo muito mais irritante com os barulhos das pulseiras de outra pessoa.
Não há maneira melhor de falar dessa segunda-feira do que explicitar que não existe vontade alguma de estar aqui, ali, acolá. E que nesse momento, a minha existência não é mais que um efeito colateral de um sexo mal feito no banco de trás de um fusca vermelho.
46 sem saco
Hoje o sol está absurdamente quente. Queimado. HOT HOT HOT, diria Silvio Santos. Em particular uma ida ao novo emprego, ver qual é. Ademais, nada demais. Amanhã uma amiga da Isa irá passar o dia em casa. É a primeira vez que isso acontece. Mando notícias, envio um sinal. Meu cansaço hoje está tão devastador que vim trabalhar com a camiseta do pijama.
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Hoje o carro quebrou novamente. Simplesmente parou. Está lá, estático numa esquina esperando que seja tomada uma medida drástica: gastar dinheiro com ele. Carro é um ser mercenário, nem chorando sangue ele segue adiante. Esse novo problema traz a tona algo que venho evitando há meses: corte brusco de gastos. Os mais atentos já devem ter percebido que não sou apenas uma mulherzinha consumista, mas uma endividada crônica.
Vamos à carga dramática dos fatos. Não se trata apenas de economia semanal de gasolina, porque para enteder o que esse gesto implica, é preciso uma singela aula de geografia. Moro há 20 quadras do novo trabalho. Percurso que faço em meia hora, já que a Cidade é ridicularmente plana. O problema é que ela também tem o MAIOR SOL DO UNIVERSO. O MAIS QUENTE E EFICIENTE DE TODOS.
OK. Contido o pequeno descontrole. Não há problema, um tênis confortável e três meses de carro parado podem resolver minha situação. O segundo passo é cortar a compra de cosméticos. Tenho cremes para corpo, rosto e afins que chegam tranquilamente até o mês de janeiro. Tudo bem que ainda tenho uma dívida considerével nesse ponto em janeiro e outra relativamente significativa em dezembro.
Resumindo cortando gasolina, cosméticos, faxineira e reduzindo pela metade meus gastos com manicure (Jamais deixarei a depilação de lado) economizarei R$ 1050 nos meses de novembro, dezembro e janeiro. Hum. Vendo tudo junto assim, até me sinto mal. Porque quando os economistas dizem “cortar todas as despesas desnecessárias”, esse desnecessário é para quem? Eles? Eles não precisam de unhas feitas.
Feito isso, em dezembro há um passo importante. Renegociar limite do banco e cartão de crédito. Depois disso, entramos naquelas negociações de celular e telefone. E fim. Voltamos à paz. Acredito que até julho isto esteja resolvido. Parece tão bonito e organizado por aqui. Mas é tão difícil nos outros dias. Quitar, pagar, acertar, negociar. A parte boa é que em dezembro já terei um relativo aumento no meu salário, o que possibilita ainda mais os pagamentos.
Mas esse processo da vida adulta é algo que me irrita profundamente. Não sei lidar com essas questões. Fico me sentindo deveras pobre em não poder comprar um Ipod ou um carrinho de passeio de luxo para bebês ou pintar as portas marrons de casa, que eu odeio de maneira impar. Achei, sinceramente que entraria nos meus 30 anos com a minha vida financeira em ordem. Tem sido frustrante reconhecer esse fracasso.
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Dormi. Como não fazia há tempos. Dormi com vontade. Das 19h50 de ontem até ás sete horas de hoje. Descansei. Não levantei nem para ir ao banheiro. Acordei e com a calma que não me é peculiar comecei o meu dia. Deixei Isa dormindo, fiquei ronronando no colchão e deixei descaradamente que o Lucas aprontasse tudo. Mochila, mamadeira e troca de roupas. Então quando ele saiu com ela, preparei meu café da manhã (pão de aveia, leite semidesnatado e toddy) e tomei vendo televisão. Passei meus cremes, escovei meus cabelos e ajeitei tudo com uma calma impressionante.
Mas ao chegar no jornal, fui tomada de um ódio impar. Ódio de como as coisas são feitas de maneira descoordenada. De todas as matérias que suei para escrever, nenhuma saiu assinada. “Esquecemos” Meu cuh sabe? Eu não posso esquecer de escrever ou de checar a informação ou de fechar a página. Mas as pessoas se esquecem de fazer bem o trabalho delas.
O cotidiano das redações consiste mais em torcer para que tudo funcione do que fazer o seu trabalho. Essa é a última coisa que se acaba fazendo e é difícil porque é um lance tão arraigado à profissão que se torna metafísico. Cansa demais. Não rola de ir para a rua e fazer a matéria simplesmente, tem que rolar um milagre. Uma glória divina para que tudo dê certo. O reconhecimento, quando chega, dura no máximo até o meio-dia do dia seguinte. É preciso recomeçar sempre. Todo dia do zero. Todo dia, uma pajelança.
Então, depois da minha manhã calma e descansada fora do trampo, pude enfim pensar calmamente no que fazer para que as coisas se ajeitem. Elas precisam se ajeitar anyway. Pagar cartão de crédito, pagar limite do banco, quitar dívidas. Zerar momentos negativos. Mas deixo claro que nada disso vai acontecer antes dos 30. O processo começou e tals. É lento e gradual, mas enfim. Já consegui abrir mão do jornalismo diário. E isso, é sim uma grande vitória. E viva a subjetividade!
49 começo de tarde
nenhuma mãe deveria enterrar o filho.
49 [sono no trabalho]
A dor de cabeça apresentou uma melhora significativa. O sono não. Não consigo evitar os olhos lacrimejando e os bocejos barulhentos. Moro há 20 metros daqui e fico o tempo todo imaginando a possibilidade de sair andando como quem vai ao banheiro ou pegar um café e simplesmente ir dormir. Porque não eu me pergunto. Outro bocejo. Meu óculos está cheio de respingos de lágrimas de sono.
Ontem, finalmente, eu consegui caminhar. Pouco mais de meia hora. Hoje repito a dose e ainda durmo às nove. Eu juro.
