70 dias para 30 anos

Respingos de uma vida que a beira dos 30 foi atirada ao ventilador.

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Sempre choro quando leio sobre o Caso Isabella. Sempre. Não há metáfora nas frases anteriores. Nem hipérbole. Choro. Não importa onde esteja ou quem esteja, choro. Na época do crime, estava em casa, de licença maternidade. Aprendendo a conviver com uma menina nova. Em boa parte dos dias, a televisão ficava desligada. Não consigo entender violência contra crianças. Independente da forma como ela se manifesta, acho incompreensível. Muitas vezes, me pego pensando se aquele ralho, aquela puxada, aquele grito era mesmo necessário. Se aquela brincadeira seria uma violência.

Associar a imagem da criança a coisas como bebida, sexo ou ações tipicamente adultas é a porta de entrada para a violência física. Cresci numa casa violenta. Com gritos e tapas a rodo. Não havia freio para os assuntos que seriam tratados perto de nós, as crianças. As conversas de caráter sexual continuavam independente de haver ou não criança na sala.  Os pronomes de tratamento eram os mais precários possíveis. Não há uma pessoa com auto-estima saudável na minha família. Todos nós crescemos diante da possibilidade de ser humilhado e agredido a qualquer momento.

Não é a dor da mãe da Isabella que me choca. Entendo a dor da mãe que ficou com a vida inacabada sem os sons peculiares, pequenos abraços e grandes sorrisos. Mas, o que me dói é imaginar o quanto a menina sofreu ao ver que o agressor era o pai. Que ele respondeu aos pedidos de socorro com mais violência. Não há dor mais intensa do que perceber que não há ninguém por você. Ninguém. Essa é uma dor que nenhuma criança deveria passar. Enquanto isso acontecer, muitas mães vão continuar enterrando seus filhos.

Não consigo me conter quando vejo esse caso em particular. Não tenho nenhum anestésico contra esse sentimento. Seja por empatia ou por egoísmo, é uma dor muito presente em mim. Quando penso na Isabella, lembro de mim, aos seis anos. É dficíl seguir adiante com esse nó na garganta, sempre a espera do próximo soco ou chute.

Escrito por Fabrina Martinez, com F e Z no final

Novembro 25, 2008 às 12:41 pm

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