28
Novas contas aparecem. Velhas contas se vão. Uma das minhas mais importantes metas em 2008 é colocar a vida financeira em ordem. Sim. Um FARDO que á começou. Muito difícil essa vida adulta. Muito mesmo.
29 Espasmo
Confesso. Não consigo me adaptar às mudanças. Tenho dificuldades em olhar para o B quando tudo foi ajeitado para A. Não é proposital, é uma incapacidade ululante. Nelson rodrigues entenderia isso. E faria um conto. Com algum gordo com gravata azul de bolinhas brancas. Impossível. Não consigo lidar, pensar, andar e falar após uma mudança. Sou um avestruz. Isso. Com aquela barriga e aquelas pernas compridas. Um avestruz. Affe.
29
Se fuê. O mês se foi com uma agilidade impressionante. E cá estou eu, há menos de um mês dos meus 30 anos e vivendo uma crise existencial inacreditável. Em resumo, estou migrando definitivamente para a internet. MÊDO.
32
Olhando pela janela me pergunto o que faria desse um dia especial. A calça que estava apertada, finalmente larga. O novo trampo. Os vícios de msn e e-mail. A expectativa pelo pagamento. Mas, eu só consigo me apegar à lembrança do banho quente com a Isa logo pela manhã. O final de noite que tivemos nós duas no colcão da sala e o amanhecer de nós três, preguiçosos. Evitando o despertador. A caminhada para o trabalho de mãos dadas com o Lucas. Como não fazíamos. Há anos. Não sei ao certo. Mas tem coisa que eu gostaria de registrar. Mas não vou. Estou incapaz de qualquer tradução nesse momento.
33
Sempre tive medo do casamento. De que se tornasse um fardo triste. Não sou muito fã de redenção. Não acredito que o sorriso final compense tudo. Não acredito em Piaf. Lembro que a minha mãe dizia “o homem é tudo. se tiver isso em mente, tudo ficará bem”. Há poucos metros de completar 30 anos de união (?), ela e meu padrasto mal se olham. Ele dorme no quarto dos filhos e ela na cama. Com duas dálmatas. Hoje, ela se volta para o trabalho e diz com uma propriedade incrível que eu jamais devo abrir mão da minha profissão.
Sempre tive medo do casamento. Do dia-a-dia que transforma amores em estranhos. De pessoas sem olhar na mesa do restaurante, de quem não caminha mais de mãos dadas. Hoje, quando vínhamos para o trabalho a pé, Lucas e eu saudamos a felicidade do carro quebrado. Há tempos pudemos andar abraçados. Há muito tempo. Nossos minutos sozinhos são raros e escassos. Quase não temos momentos solitários. São responsabilidades, planos, limpezas, organizações, contas a pagar. Tudo tão urgente e extremo.
Não acredito em redenção. Mas qualquer sacrifício vale a pena quando Lucas me segura a mão e me abraça mesmo depois de ter ficado magoado por eu não o enxergar como ele gostaria e precisa. Tenho sido relapsa com ele. Quase tão intensamente que até dói. Achar o meio termo é muito difícil quando em meio à duras jornadas, ainda precisa-se de espaço para amar e ser amada. Mas essa tem sido minha jornada diária.
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me veio uma dúvida agora. qual será o som que Obama irá colocar de fundo para assinar a papelada, hein?
ADENDO ENVIADO PELO MARIDO: NY Times, sobre Obama: “A geração deles tem por ordem a consolidação e um novo tradicionalismo -uma geração adepta de filtro solar e de capacetes para andar de bicicleta, e cuja principal preocupação é criar bem os filhos”. :~~~~. Como o texto está fechado para assinantes, vou colocá-lo na íntegra. Eu realmente acredito que educar bem os filhos é um forte índice de que as coisas estão caminhando bem.
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Encontro com a escassez
Geração que chega ao poder enfrentará um problema para o qual não está preparada
DAVID BROOKS
DO “NEW YORK TIMES”
O DIA 4 de novembro de 2008 representa o fim de uma era. Economicamente, marca o final do longo boom iniciado em 1983.
Politicamente, provavelmente marca o final do domínio conservador iniciado em 1980. Geracionalmente, marca o final da supremacia da geração baby boom, iniciada em 1968. Nos últimos 16 anos, membros da geração baby boom (os norte-americanos nascidos entre 1946 e 1960) ocuparam a Casa Branca.
Quando os historiadores analisarem a era que está se encerrando agora, verão um período de realizações privadas e de decepção pública.
Nas duas últimas décadas, os EUA se tornaram um lugar muito mais interessante. Empresas como Starbucks, Apple, Crate & Barrel, Microsoft e muitas outras iluminaram as vidas cotidianas. Cidadãos privados, sobretudo os jovens, repararam os danos no tecido social, se dedicaram ao serviço comunitário e promoveram uma redução no número de viciados em drogas e de gestações na adolescência.
Mas, ao mesmo tempo, a esfera pública não floresceu.
A despeito de décadas de prosperidade, questões já antigas como a saúde, a educação, a política energética e os benefícios sociais não foram conduzidas devidamente. A geração baby boom, que iniciou sua vida adulta prometendo ativismo permanente, provou ser uma geração sem distinção política alguma.
Produziu dois presidentes, nenhum dos quais confirmou o potencial que parecia apresentar. E seus integrantes se mantiveram aferrados à guerra cultural que consome a geração deles. Estão transmitindo o manto da supremacia política depois de desperdiçar uma série de oportunidades.
A frustração parece vir crescendo mês a mês. Os americanos estão ansiosos sobre suas vidas privadas, e seus líderes lhes são absolutamente repulsivos. Por isso, mudança é necessária.
Os republicanos escolheram como candidato um velho guerreiro cujo histórico envolve tomar decisões difíceis e absorver as conseqüências adversas que elas podem causar. Muitos de nós o consideram como um dos heróis de nossa era. Mas a demanda do público por mudança é total.
Barack Obama é uma criança dos anos 60. Para as pessoas da geração de Obama, os grandes tumultos do país já haviam passado quando eles chegaram à idade adulta. A geração deles tem por ordem a consolidação e um novo tradicionalismo -uma geração adepta de filtro solar e de capacetes para andar de bicicleta, e cuja principal preocupação é criar bem os filhos.
Obama é membro não só dessa geração ponderada como de seu segmento mais educado. Seu grupo social, formado por pessoas prósperas nascidas depois do baby boom, o vem apoiando com fervor inabalável. A classe privilegiada e de nível elevado de educação nas universidades, na mídia, na medicina e nos centros financeiros bancou sua campanha de US$ 600 milhões (que dependeu ainda mais que a de George W. Bush em 2004 de doações em montante elevado). Esse grupo em breve se tornará a classe governante. E a ironia é que terão de enfrentar o problema para o qual estão menos preparados: o da escassez.
Criados em ambientes prósperos, favorecidos pela genética, esses jovens líderes da meritocracia terão de governar em um período em que a procura pela riqueza do país supera a oferta. Terão de arcar com o fardo cada vez mais pesado de uma sociedade envelhecida, custos de saúde em alta e preços elevados para a energia. Terão de cobrir o US$ 1 trilhão ou mais que o governo gastará para evitar uma recessão profunda. Enfrentarão dificuldades para manter suas promessas de cortar impostos, criar uma revolução na energia, aprovar um dispendioso programa para a saúde, e tudo mais.
Nos próximos anos, a riqueza do país estará estagnada ou em queda. A contração fiscal se tornará mais severa.
Haverá disputas mais ferrenhas por recursos escassos, divisões mais gritantes entre facções. O desafio do próximo presidente será atenuar a dor da recessão atual e ao mesmo tempo construir uma sólida fundação fiscal para que o país possa voltar a prosperar em algum momento futuro.
Em outras palavras, provavelmente estamos ingressando em um período no qual os jovens e inteligentes liberais terão de encarar uma escassez inamovível, para a qual não têm planos.
Na era da transição, caberá aos filhos arcar com o fardo deixado por seus pais.
34 – [yes, we can]
Obama ganhou. Em muitos momentos segurei o choro pela vitória dele. Por mais que negue – com enfâse sempre – eu acredito nas pessoas. Acredito que elas poderiam fazer melhor. Raramente elas conseguem e isso me frustra demais. Talvez essa seja minha maior manifestação egoísta. Mas o Obama ganhou e eu senti que pela primeira vez o que o povo americano não seja formado exclusivamente de pessoas depressivas ou depreciativas.
Quase chorei. Mas me contive. Fiquei com o olhar perdido por muitos segundos e contive as lágrimas. Um negro presidente. Melhor que isso, só um final diplomático no Oriente Médio. Paz é uma coisa muito de miss. Em qualquer lugar do mundo. Por menor que ele seja, as misses querem a paz. No geral, elas apenas devem desejar que seus pais as deixem quietas para ouvir Jay-Z.
O fato é que fico muito feliz de ter visto esse momento histórico antes dos meus 30. Isso é importante demais para mim. Costumo ter esses arroubos políticos. Quando o Lula ganhou, derrubei muitas lágrimas vendo seu discurso de vitória. Estava sentada na cadeira de balanço da minha avó e pensando que as coisas poderiam ser melhores. Apesar das críticas e do blábláblá que as envolve, elas se tornaram sim com o passar dos tempos.
Mas meu momento político mais marcante foi a morte de Tancredo. Eu tinha pouco mais de seis anos e lembro que ao acordar fui falar com a minha mãe. Ela estava no tanque lavando roupa e anunciou a morte dele. Tinha um pesar na voz dela. Não sei se pela roupa ou pela morte. Com o tempo, ela foi se mostrando (ou eu enxergando) mais interessada com a casa do que com o mundo. Peguei meu toddy, sentei no sofá e derrubei umas lagriminhas pensando e agora?. Nunca soube precisar como foi aquele e agora?, mas esse de hoje é folheado de esperanças.
35
Cinco dias é muito tempo. É tempo suficiente para mudar de emprego, descobrir novas dívidas, relembrar antigas, deixar um blog de lado, perder a mão do regime, curar a ressaquinha de um nénem que foi na Doce Noite do Pijama, perder a faxineira, querer gastar dinheiro indiscriminadamente, brigar com o ex-patrão, arrumar um emprego melhor e com um computador decente e ficar obcecada por economia doméstica. O que aconteceu entre o 39 e 35? Tanta coisa. Mas externamente, foi apenas o Cisne Negro passando.
40 [atrasado] e 39
Ontem, por questões metafísicas, faltou internet na firma. E eu fiquei sem postar o texto. Então aí vai ele. Hoje é meu último dia nesse emprego e a Isa vai pra noite do pijama na escolinha. Não tenho muito o que contar. Volto na segunda.
40
Uma das coisas que sempre me intrigou nas pessoas bem sucedidas é o foco. Aparentemente, elas nunca se perderam. Nunca fizeram algo que não gostavam por achar que amavam. Sempre por necessidade ou por uns trocados. Acreditei ternamente que deveria ser jornalista e que seria uma boa profissional. Dez anos depois da minha primeira matéria assinada, alimento sérias dúvidas sobre isso. Não sei se por prepotência, arrogância ou ingenuidade, realmente acreditei que o jornalismo era uma profissão gratificante.
Não é. O dia-a-dia é cansativo e moroso. Sabe-se muito sobre tudo e sobra pouco espaço, tempo, vontade para o que realmente importa: o que se quer de verdade. Ontem dormi e acordei pensando no que queria. Contar histórias. As minhas. Interessantes ou não. As de outras pessoas. Vivas ou inventadas.
Pensei nisso enquanto caminhava hoje pela manhã. No 40º dia que antecede meu aniversário de 30 anos, tive a coragem de assumir para mim que não me importa a redação. Não me importa meu nome escrito num jornal local ou numa agência internacional – emoção efêmera vale ressaltar –, isso não me basta. Preciso de livros, contos, historietas, micro-contos, desvirtuamento, insanidade.
Não me bastam os adjetivos. Sem as metáforas e hipérboles meu mundo não é possível. As redações me sustentam a carne e os carnês, mas esgotam minha vontade. Conseguia ser realmente feliz ao contar para Isa histórias incríveis que a ajudassem a se livrar das cólicas e ganhei o Lucas ao lhe falar claramente sobre o que se passava e como passava na minha cabeça. Hoje, entendi finalmente, que preciso me ganhar. Mais que isso, como vou me ganhar.
Trazer a tona um mundo interno tão movimentado não é mero ato de sobrevivência ou uma ação egocêntrica. Tenho consciência plena de que as pessoas simplesmente podem não se interessar pelo que tenho a dizer. Mas escrever e publicar, seja qual mídia for, será mais profundo ato de irresponsabilidade social.
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Adoro badulaques com todas as forças da minha mente. Alguns são bem significativos, como esse que ganhei do Lucas no último dia dos namorados. Para mim, é uma obra de arte premonitória.
